quinta-feira, 21 de abril de 2011

Teatro: ENCONTROS E DESENCONTROS

Cena de "Cozinha e Dependências"/Vicente Mello

BIANCA BYINGTON E SILVIA BUARQUE DEVIDEM O PALCO DO TEATRO POEIRA

Entre o desejo e a realização foram oito anos de dedicação. No processo, a atriz Bianca Byington multiplicou habilidades e estreou papéis inéditos em sua carreira: o de produtora e diretora: “Fui acumulando as funções naturalmente, na medida em que fui me envolvendo e tomando conta do projeto”. Como desdobramento, decidiu montar não uma, mas duas peças de Agnès Jaoui e Jean-Pierre Bacri: “Cozinha e Dependências” e “Um Dia Como os Outros”, em cartaz até junho no Teatro Poeira. 

Dividindo a direção com Leonardo Netto, Bianca reuniu um único elenco para as duas montagens, numa experiência que remete às antigas companhias de repertório, um acaso bem-vindo: “Eu tenho uma certa nostalgia desse teatro que nunca vivi”, confessa Bianca. Acompanhando (e incentivando) a gestação do projeto, a amiga de longa data Silvia Buarque, que atua nos espetáculos e também vê na oportunidade de encenar duas peças um prazer adicional: “É um sonho para todo ator viver essa experiência”. 

Completam o elenco Kiko Mascarenhas, Leandro Castilho, Márcio Vito e Analu Prestes (a única que atua apenas em uma delas, “Um Dia Como os Outros”). As tramas, independentes, apresentam um atrativo a mais quando assistidas nas sessões duplas, aos fins de semana, pois revelam um tanto da carpintaria (e da magia) teatral. Observa-se a versatilidade dos atores assim como a metamorfose do cenário e figurinos, que inscrevem as ações em lugares distintos, porém indefinidos: “As duas peças são perfeitamente atuais por tratarem de relações afetivas, e poderiam se passar em qualquer cidade do mundo ocidental”, afirma Bianca.

Uma dramaturgia elegante e despretensiosa, que revela e o humor e a dor ocultos na banalidade de nossas vidas. Assim Bianca Byington define os textos da dupla de autores franceses, em que momentos de conflito e tensão não deixam de ser também hilários. Premiados e montados em diversos países, os textos de Jaoui e Bacri são encenados pela primeira vez no Brasil. O trabalho mais conhecido da dupla pelo público brasileiro é filme “O Gosto dos Outros”, indicado ao Oscar de Filme Estrangeiro em 2001.
“Cozinha e Dependências” narra o encontro de cinco de amigos que a vida cuidou de afastar durante dez anos. Uma situação propícia para desencadear ações e reações surpreendentes, como aponta Bianca: “O reencontro deflagra a insatisfação dessas pessoas com a própria vida; as idealizações, as ilusões e preconceitos que permeiam as relações e vêm à tona”. Para Silvia Buarque - que vive Charllote, uma jornalista bem-sucedida, mas ainda assim ofuscada pela fama do marido – a peça também proporciona uma reflexão sobre a fama na sociedade atual: “Não é uma crítica superficial, mas sobre como a fama desestabiliza as relações”.
“Um Dia Como os Outros” tem em seu núcleo uma família que se encontra para celebrar o aniversário de um dos membros, só que a demora da aniversariante desencadeia a primeiras discussões da noite. Grosserias, presentes equivocados e acusações de parte a parte expõem a complexidade e a tênue harmonia das relações familiares. Silvia vive Betty, a caçula de três irmãos, inteligente e sagaz na análise dos outros, mas cuja baixa autoestima dificulta a compreensão de suas próprias carências. Sílvia ressalta a como o texto joga luzes sobre os pequenos dramas cotidianos, em que fica claro que “o inferno somos nós”. A atriz comemora a reação da plateia, que não economizou gargalhadas nas primeiras apresentações: “Foi uma grata surpresa, porque não é uma comédia rasgada, mas as pessoas percebem e apreciam também esse humor que não é óbvio”, conclui Silvia. 

Bianca Byington também destaca a maneira ao mesmo tempo leve e perspicaz e como as peças tratam das relações pessoais, com uma mistura de “humor com amor”. Para a atriz, diretora e produtora, é não apenas possível mas desejável divertir-se enquanto lidamos com as dificuldades da vida: “Acredito profundamente que só o humor salva”, defende Bianca.

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